
O Sebo
Só existe um lugar pra onde eu me dirijo quando estou a fim de gastar alguns trocados. Quando tô na rua, perdida, com dez ou quinze reais à minha disposição: o sebo!
Já foi tempo em que eu me matava de me economizar pra conseguir adquirir o mais novo lançamento na mais nova livraria da cidade. Não mais! Descobri que as melhores coisas se encontram nos sebos. E baratas feito pirulitos vagabundos!
Meu estômago roncava, uma sede dos diabos, e eu fazendo um puta esforço pra não gastar o meu amado dinheiro numa refeição qualquer, ou pior: no tão irresistível-maravilhoso-celestial-orgástico-e-catártico "Sorvete a Quilo Finlandês"! Não! Eu não podia pensar nessas tentações! Os livros me esperavam! (o sorvete era um dos tantos prazeres que custavam os olhos da cara! Uma vez o sorveteiro me extorquiu 10 reais num único sorvete! Um truque maquiavélico de enfiar a pá o mais fundo que puder no balde de sorvete e tacar tudo dentro do potinho, contando com a gula e ganância do consumidor...mas isso é uma outra história...)
O sebo era uma cálida e escura boca aberta à minha frente. Uma gruta de vozes guturais. Eu entrei na pequena espelunca, deixando para trás nada mais do que ruas e ruas e loucos transeuntes portando cheques pós-datados. A mulher do balcão me olhava com um par de olhos simpáticos que se escondiam por detrás de lentes fundo-de-garrafa. Dava pra ver que ela era uma das que iam com a minha cara. Provavelmente me tinha em alto conceito, algo como Uau! Uma jovem que se interessa por livros! ( Ou vai ver ela me via apenas como uma maluca qualquer com uma grana pra gastar...vai saber...) Esse não era o tipo de coisa que me preocupava, pois eu estava no paraíso liberto e poeirento dos livros velhos! Poetas! Contadores de História! Mentirosos Floreados! Artistas Suicidados! E parasitas drogados! Todos ali, mortos e me olhando, escondidos pelas páginas envelhecidas de suas obras de arte! Um cubículo escuro e claustrofóbico, iluminado por uma parca lâmpada quase pifando. Um ambiente sedutor, com um quê de maligno. Eu estava dentro de um inferno de estantes e me sentia inteiramente em casa!
Agora me deixa falar uma coisa a respeito dos sebos. Frequentar um sebo é o tipo de coisa que requer certa perícia. Não é um troço pra qualquer um. Aprendi isso na primeira vez em que entrei numa loja dessas. Não é como uma livraria comum, em que você entra e têm um milhão de funcionários prontos pra te ajudar e tudo é separado por categoria e ordens alfabéticas. Não. Num sebo você tem que ser um garimpador. Um bandeirante desbravando fronteiras. Um arqueólogo em busca de relíquias esquecidas pelos cadernos literários. Um Indiana Jones literário. E você está sempre sozinho. Nenhum funcionário poderá te ajudar, pois em geral eles são carinhas atrás de um balcão que querem mais que você se foda. Não estão nem aí pra saber o que é que você está procurando.
Eu entrei no local me sentindo aliviada por não ter nenhum funcionário vampiresco na minha cola. Eu sempre odiei aquela típica rotina das lojas , em que você entra no lugar, roda um pouquinho, e quando vc menos espera, lá está o cara atrás de você, surgido do nada, como um fantasma de crachá. E ele te diz: Posso ajudar? E você responde: Não, eu só estou dando uma olhada. E ele diz: Fique à vontade. Mas é claro que você não fica a vontade, porque vc sabe que ele tá te sacando de longe, esperando que você escolha logo o que tem que escolher e se mande. Ou pior, esperando pelo pior, que você tente enfiar alguma coisa debaixo da camisa, e então ele terá que gritar PEGA LADRÃO! e vc sairá correndo da loja, feito uma trombadinha em pânico. Não... Não em um sebo.
As prateleiras não me causavam grande impressão. Um sebo nunca causa grande impressão à primeira vista em ninguém. Por isso explorá-los não é tarefa pra amador. Se você não tem experiência com a coisa, você não encontra nada demais. E aquele sebo não era exceção. As prateleiras eram um verdadeiro oceano de Sidney Sheldon, Danielle Steel e Harold Robbins e mais um trilhão de folhetins no estilo Sabrina. Mas eu sabia pra onde me dirigir.
Perguntei a balconista se eu poderia subir ao sótão. O lugar onde as grandes relíquias descansavam. Um lugar em que poucos ousavam adentrar. Somente os mais sábios, ou os mais desesperados. Ela abriu caminho, deixando a imunda escadinha à minha frente.
Toda a fome e sede que eu sentia, neste momento não eram nem mesmo lembranças. Eu subia aqueles degraus, repletos de livros, com a maior ansiedade do mundo.
O silêncio era mortal. Todo o ambiente estava inerte e escuro. Eu teria que forçar a minha vista para conseguir ler alguma coisa. Livros e mais livros se empilhavam de uma forma mais do que desorganizada, verdadeiras ruínas vivas. E eu sabia que aquelas pilhas de desgraças estavam vivas, e seus criadores estavam vivos, uivando com ecos ectoplasmáticos Marliiiii, Maaaaarliii... Não tinha a menor dúvida, o lugar era mal assombrado. & mal ajambrado. A primeira coisa que fiz foi tirar o moleton, pois não se podia nem mesmo respirar. Um verdadeiro caixão, fechado e trancafiado. Partículas de poeira flutuavam como as brumas de Avalon.
Eu olhei para os lados, sem saber por onde começar. Tudo era convidativo. A prateleira onde ficavam os livros franceses parecia muito interessante, com um enorme volume de Rimbaud por apenas 5 reais. Mas puta que pariu, eu não sei francês. FUCK. Deixei a adolescente maldita de lado e me concentrei na prateleira à minha frente, com amontoados de livros das mais variadas espécies. How To Play Chess, Queen Vitoria, Gone With The Wind, Ecce Homo, Jack London: Life and Time, tudo era uma raridade barata. E cada um desses fantasmas ronronava a meus pés como prostitutas lascivas.
Eu assoprava a poeira de cima dos livros e sentia o peso de cada um em minhas mãos, era como se eu estivesse descobrindo tomos antigos, ou múmias milenares. Tesouros imortais que exalavam bolor e putrefação, mas que se revelavam tão doces quanto todas as primaveras do mundo, se você fosse capaz de descobri-los.
Consegui descolar As Vinhas Da Ira, de Steinbeck, e uma edição caindo aos pedaços de 1984. Mas eu sempre gostei dessas edições caindo aos pedaços. Sempre senti um certo prazer em conseguir esses livros. Neles, se tem a nítida sensação de se estar conquistando algo, coisa que não acontece com os livros novos. Através das páginas soltas e capas consertadas com durex palavras são ditas em forma de estranhas revelações. Palavras impronunciáveis por qualquer livro de primeira mão. A Mágica Dos Livros Velhos.
Tchau meus amigos! Até a vista Jack London! Te vejo mais tarde Garcia Lorca! Bye Bye Ernie Hemingway! Se cuida Kafka! E até você, Jacqueline Susann, fica na paz!
E o ar! Ah, o ar! Tornava a entrar em minhas narinas! Eu desci a escadinha suando em bicas, meio maluca de tanta poeira e escuridão. Uma sobrevivente de um passado empalhado. Voltando a um presente cuzão, que não me tem como presente. A loja estava vazia.
Confesso que no momento senti aquele impulso mais do que filha da puta de me mandar com a mercadoria sem pagar nada, coisa que todo mundo sente vontade de fazer quando se depara com uma loja deserta. Mas porra, eu não ia fazer isso! A dona tinha saído (ido comer um salgadinho, sei lá) e me deixado sozinha no sebo. Porra, ela merecia uma salva de palmas! Taí uma alma verdadeiramente boa. A garota gosta de literatura. Se ela quiser levar uma porrada de livro debaixo do braço sem pagar nada, cara, que leve! Não, eu nunca ia fazer uma coisa dessas. Não em um sebo. Sebos são as únicas lojas em que se tem confiança no consumidor. Pois nos sebos, eles não são consumidores, são sedentos por ecos. É. Sebos são lojas puras. Arcádias. E as pessoas dos sebos são pessoas puras.
Fiquei lá esperando feito uma idiota enquanto a mulher comia o seu salgadinho numa pastelaria qualquer. Esperando com a maior das paciências, e com o maior orgulho de mim mesma.
A mulher voltou e seus olhos brilharam ao me ver ali, a esperando. Ao mesmo tempo surpresa e radiante. Eu tinha passado no teste. Eu merecia frequentar aquele sebo e visitar o sótão. Ela me deu um sorriso amável, enquanto que o conceito que ela fazia de mim subia em mil por cento. Entreguei os dois livros para ela, já sabendo que seriam seis reais ao todo.
Logo saquei que ela gostou de me ver com aqueles volumes. Steinbeck. Orwell. Coisas inesperadas.
_ Estou vendo que você gosta de ler!
_ É.
_ Pratica alguma coisa de literatura?
_ Não, não. Só leio mesmo.
Não estava com disposição pra dizer que eu escrevia e o blá,blá,blá de sempre. Não tava com muita vontade de iniciar uma conversa naquele momento. Talvez se isso acontecesse, a imagem idealizada que eu tinha dela se dissiparia, e a que ela tinha de mim idem. Preferia deixar as coisas como estavam. Paguei os seis reais e saí da loja.
Sentei num banco da praça, folheando as minhas aquisições por horas a fio, e pra falar a verdade, me sentindo a maior das intelectuais!
Sempre que posso faço uma visita àquele sótão imundo e sufocante. Cavando poesia e pulp fiction. Henry Miller, mais Steinbeck, uma biografia de James Dean e algumas outras coisas. Tudo por uns míseros reais. Mas o que é mesmo importante, é o momento em que eu estou lá em cima, tossindo com a poeira, ouvindo vozes de fantasmas e delirando em meio a sujeira. Aquele é o meu santuário. Um dos meus lugares secretos. O lugar a que eu retorno todas as vezes que quero conversar com meus amigos mortos. Uma pretensa escritora. Uma menina. Conversando com um bando de defuntos famosos. Grandes amigos. Os meus amigos mortos.
E talvez algum dia alguma outra menina suba no sótão de um sebo qualquer. E talvez a balconista a deixe lá sozinha. E talvez eu seja a sua amiga morta...
Valew MaH*....PERFEITOOOO!